Poucas cenas no futebol concentram tanta tensão quanto a disputa por pênaltis. Um jogador, sozinho, caminha até a marca branca a 11 metros do gol, enquanto o goleiro adversário tenta adivinhar para qual lado a bola vai. Apesar de parecer algo natural ao esporte, o desempate por pênaltis é relativamente recente — tem pouco mais de meio século de existência — e nasceu de uma frustração muito concreta: antes dele, jogos empatados eram decididos por sorteio de moeda.
Como os empates eram resolvidos antes da disputa de pênaltis
Até o final dos anos 1960, quando uma partida terminava empatada em um mata-mata, diversas federações recorriam a métodos que hoje parecem inimagináveis: replays (novas partidas inteiras), sorteio de moeda ou até mesmo a contagem de cartões e faltas cometidas. O ponto de virada aconteceu nos Jogos Olímpicos de 1968, quando a seleção de Israel foi eliminada nas quartas de final por sorteio, depois de ficar no empate com a Bulgária. A eliminação por “cara ou coroa” gerou revolta e foi o estopim para a criação de um sistema mais justo.
A proposta de Yosef Dagan e a adoção pela FIFA
O israelense Yosef Dagan já defendia, desde 1965, um sistema de cobranças alternadas para desempatar partidas, e chegou a convencer a federação de seu país a testá-lo na Copa de Israel daquele ano. Depois da eliminação olímpica de 1968, Dagan e o dirigente Michael Almog formalizaram a proposta à FIFA, em agosto de 1969. Com apoio do dirigente malaio Koe Ewe Teik, o novo sistema foi oficialmente anunciado em 27 de junho de 1970. Há também uma versão alternativa, defendida por fontes alemãs, de que o dirigente Karl Wald teria criado um mecanismo semelhante na Copa da Baviera de 1970, pouco antes da adoção oficial pela UEFA e pela FIFA.
A primeira disputa oficial: Manchester United x Hull City
A estreia da disputa por pênaltis em uma partida profissional aconteceu em agosto de 1970, pela Copa Watney, torneio amistoso de pré-temporada na Inglaterra. O Manchester United venceu o Hull City por 4 a 3 nas cobranças. George Best foi o primeiro jogador da história a converter um pênalti nesse formato, enquanto Denis Law teve o desonroso mérito de desperdiçar a primeira cobrança. Seis anos depois, o mecanismo ganhou repercussão mundial na final da Eurocopa de 1976, quando a Tchecoslováquia bateu a Alemanha Ocidental por 5 a 3, com a icônica cavadinha de Antonín Panenka na cobrança decisiva — um gesto que até hoje dá nome a esse tipo de finalização.
A chegada às Copas do Mundo
A Copa do Mundo só teve sua primeira disputa por pênaltis em 1982, na semifinal entre Alemanha Ocidental e França, vencida pelos alemães por 5 a 4 após um empate emocionante em 3 a 3. Já a primeira final de Copa decidida dessa forma veio em 1994, quando o Brasil superou a Itália por 3 a 2 nos pênaltis no Rose Bowl, na Califórnia, conquistando o tetracampeonato mundial depois de 0 a 0 no tempo normal e na prorrogação.
Como funciona o procedimento hoje
As regras atuais, definidas pela International Football Association Board (IFAB), preveem que cada equipe realize até cinco cobranças, sempre com jogadores diferentes, alternando entre os times. Apenas o goleiro pode defender o gol adversário durante as cobranças. Se depois das cinco rodadas houver empate, o desempate passa para a chamada “morte súbita”: as equipes seguem cobrando, uma cobrança de cada vez, até que uma delas erre e a outra acerte na mesma rodada. Vale destacar que os gols marcados na disputa por pênaltis não entram no placar oficial da partida — eles são contabilizados à parte, exclusivamente para fins de classificação.
Tentativas de mudar o formato
Ao longo das décadas, o futebol testou alternativas à disputa por pênaltis tradicional. Entre 1993 e 2004, chegou a vigorar o “gol de ouro” (e depois o “gol de prata”) na prorrogação, que encerrava a partida assim que um time marcasse — mas a regra foi abandonada por incentivar um futebol mais defensivo e cauteloso. Já em 2017, a IFAB testou o sistema ABBA, inspirado na sequência matemática de Thue-Morse, que tentava reduzir a vantagem estatística do time que cobra primeiro (estudos apontavam cerca de 60% de aproveitamento para quem bate a primeira cobrança). O formato, no entanto, foi considerado confuso demais para árbitros, jogadores e torcedores, e foi descontinuado em novembro de 2018.
Perguntas frequentes
Por que a disputa por pênaltis não conta como gol na artilharia?
Porque, oficialmente, ela funciona como um desempate à parte, e não como uma extensão do tempo de jogo. O placar da partida é encerrado no fim da prorrogação (ou do tempo normal, quando não há prorrogação), e a disputa por pênaltis serve apenas para definir o classificado — por isso os gols convertidos nela não entram nas estatísticas oficiais de artilharia dos jogadores.
Quem foi o inventor da disputa por pênaltis?
O sistema moderno é atribuído ao israelense Yosef Dagan, que propôs o formato em 1965 e o viu ser adotado oficialmente pela FIFA em 1970, após a eliminação de Israel por sorteio nas Olimpíadas de 1968. Uma versão alternativa da história credita a criação ao dirigente alemão Karl Wald, também em 1970.
Qual foi a primeira final de Copa do Mundo decidida nos pênaltis?
Foi a final de 1994, nos Estados Unidos, quando o Brasil venceu a Itália por 3 a 2 na disputa por pênaltis, depois de 0 a 0 no tempo normal e na prorrogação, conquistando o tetracampeonato mundial.
Fontes
Wikipédia — Disputa por pênaltis
Lance! — De onde vem o termo “pênalti”?
Quer entender melhor o momento exato em que a bola pode ser tocada com a mão dentro da área? Veja também a história da marca do pênalti, e relembre todos os campeões mundiais em Copa do Mundo FIFA: todos os campeões e a história do torneio.

