Estádio Nilton Santos, casa do Botafogo, clube pioneiro na adoção do modelo SAF no futebol brasileiro. Foto: Phill ad, CC BY-SA 4.0, Wikimedia Commons

SAF no Futebol Brasileiro: Como a Lei 14.193/2021 Mudou a Gestão dos Clubes

Nos últimos anos, o futebol brasileiro passou pela maior mudança estrutural em sua gestão desde a profissionalização: a chegada das SAFs, as Sociedades Anônimas do Futebol. Times centenários que sempre foram associações sem fins lucrativos, geridas por diretorias eleitas por sócios, começaram a se transformar em empresas com dono, capital aberto a investidores e obrigação de dar lucro. Botafogo, Cruzeiro, Vasco, Bahia e Atlético-MG são hoje os exemplos mais visíveis dessa virada, mas o fenômeno já passa de 40 clubes em todas as divisões nacionais.

O que diz a Lei 14.193/2021, a Lei da SAF

A Lei 14.193, sancionada em 6 de agosto de 2021, criou a possibilidade de um clube de futebol se transformar em uma sociedade anônima — uma empresa com ações, podendo ter um único controlador ou vários acionistas, assim como qualquer companhia listada na bolsa. Antes da lei, os clubes brasileiros eram associações civis sem fins lucrativos, modelo que dificultava a entrada de investidores e deixava a gestão nas mãos de dirigentes eleitos, muitas vezes sem experiência empresarial.

Um ponto central da lei é a separação entre a SAF (a empresa que passa a administrar o futebol profissional) e a associação civil original, que continua existindo para cuidar do patrimônio histórico, das outras modalidades esportivas e, principalmente, das dívidas acumuladas antes da transformação.

Como funciona o regime tributário e o pagamento de dívidas

Para incentivar a adesão, a lei criou um regime tributário especial: nos primeiros cinco anos, a SAF paga até 5% sobre a receita mensal (exceto a que vem de transferências de atletas), percentual que sobe para 4% sobre a receita total a partir do sexto ano — um valor único que substitui tributos como IRPJ e CSLL.

Já as dívidas da associação original ficam sob responsabilidade dela mesma, mas a SAF é obrigada a repassar 20% de suas receitas mensais para ajudar a quitá-las, dentro de um prazo inicial de seis anos, prorrogável por mais quatro. A lei também criou o Regime Centralizado de Execuções, mecanismo que organiza o pagamento a credores trabalhistas e cíveis de forma estruturada, evitando que penhoras isoladas comprometam o caixa do clube.

Quais clubes brasileiros já viraram SAF

O caso mais conhecido é o do Botafogo, comprado pelo empresário americano John Textor em março de 2022 por um valor mínimo de R$ 400 milhões. Sob controle da SAF, o clube reduziu dívidas em cerca de R$ 500 milhões e conquistou o Brasileirão e a Libertadores de 2024. O Cruzeiro foi adquirido pelo ex-jogador Ronaldo Fenômeno ainda em 2021 e depois revendido ao empresário Pedro Lourenço em 2024. O Vasco vendeu 70% de sua SAF ao grupo americano 777 Partners em 2022, negócio que depois enfrentou problemas financeiros e disputas judiciais. Bahia (controlado pelo City Group, dono do Manchester City) e Atlético-MG (com a Galo Holding) completam a lista dos principais times de Série A que hoje são SAFs.

Segundo levantamento do setor, o Brasil já soma mais de 40 clubes convertidos em SAF somando as quatro divisões nacionais, incluindo cerca de metade dos times da Série B — sinal de que o modelo também virou estratégia para clubes menores atraírem investimento e tentar o acesso.

Vantagens e riscos do modelo

Entre os ganhos mais citados estão o acesso a capital externo, a profissionalização da gestão, a redução de dívidas históricas e, em casos como o do Botafogo, resultados esportivos rápidos. Por outro lado, o modelo também expõe os clubes a riscos que a antiga estrutura associativa não tinha: dependência financeira de um único investidor, risco de venda do controle a fundos com interesses de curto prazo e perda de poder de decisão da torcida, que deixa de eleger diretoria para votar apenas em assuntos ligados ao patrimônio histórico da associação.

Perguntas frequentes

SAF é obrigatória para todos os clubes brasileiros?

Não. A transformação em SAF é uma escolha do clube, aprovada em assembleia pelos sócios da associação. Diversos clubes tradicionais, como Flamengo, Palmeiras e Corinthians, permanecem como associações sem fins lucrativos até hoje.

Quem vira dono do clube quando ele se transforma em SAF?

O controle pode ficar com um único investidor, um grupo de acionistas ou até ser pulverizado entre vários sócios, dependendo do modelo escolhido na abertura de capital. A associação original mantém participação e direitos definidos no estatuto da nova empresa.

As dívidas do clube desaparecem quando ele vira SAF?

Não. As dívidas contraídas antes da transformação continuam sendo responsabilidade da associação civil, que recebe repasses mensais da SAF (20% da receita) para quitá-las dentro do prazo definido pela Lei 14.193/2021.

Fontes

ISTOÉ Dinheiro — Futebol brasileiro já acumula 42 SAFs e Tax Group — O que é SAF e por que os clubes estão adotando.

O modelo SAF é apenas uma das mudanças que remodelaram a economia do futebol brasileiro nos últimos anos — para entender como os clubes tradicionais ainda se sustentam financeiramente, vale conferir também como funciona o sócio-torcedor e as regras de fair play financeiro que hoje pressionam clubes SAF e associações a equilibrar as contas.

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